A SATISFAÇÃO DA CRIANÇA/FAMÍLIA SOBRE A PREPARAÇÃO PRÉ-OPERATÓRIA REALIZADA PELA EQUIPA DE ENFERMAGEM

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Satisfaction of the child / family on the preoperative preparation performed by the nursing team

Autores:

Helena de Fátima Heleno Oliveira, Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Comunitária. Centro Hospitalar de Lisboa Central – Hospital Dona Estefânia. Consulta Externa de Otorrinolaringologia/ Imunoalergologia;

Selma Alexandra Teixeira Carrilho, Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Comunitária. Centro Hospitalar de Lisboa Central – Hospital Dona Estefânia. Consulta Externa de Otorrinolaringologia/ Imunoalergologia | E-mail: selma_carrilho@hotmail.com

Susana Maria Reis Mendes, Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica. Centro Hospitalar de Lisboa Central – Hospital Dona Estefânia. Consulta Externa de Otorrinolaringologia/ Imunoalergologia.

 

RESUMO

A cirurgia é um momento de ansiedade e preocupação na vida da criança e sua família, em virtude de haver alteração das suas rotinas, com imposição de um ambiente desconhecido, com separação das figuras securizantes da criança, possíveis implicações de lesão corporal, e perda de autonomia, alterando o seu bem-estar físico e psicológico, repercutindo-se estes efeitos na família. Para atenuar estes fatores de stress a enfermagem tem uma intervenção crucial na preparação psicológica da criança para a cirurgia e internamento. Foi realizado um estudo de investigação com o objetivo de conhecer a satisfação da criança/família relativamente à consulta de enfermagem pré-operatória realizada num Hospital de Lisboa. Aplicou-se um questionário aos acompanhantes das crianças que seriam submetidos às cirurgias de adenoamigdalectomia, adenoidectomia e miringotomia com inserção de tubos de ventilação transtimpânica em regime ambulatório, e que foram à consulta de enfermagem de preparação para a cirurgia. Obteve-se resultados bastante satisfatórios, que possibilitaram concluir que a maioria das crianças/famílias apresentaram níveis elevados de satisfação relativamente à consulta de enfermagem pré-operatória e à informação nela disponibilizada, confirmando-se que a consulta de enfermagem de preparação pré-operatória promove uma melhor informação e maior adesão às instruções de cuidados pré-operatórios.

ABSTRACT

Surgery causes anxiety and worry in child and family due to changes in their routines, unknown environment, separation of the child’s safety figures, possible body injury, and loss of autonomy, changing their physical and psychological well-being. To mitigate these stress factors, nursing has a crucial intervention in the child´s psychological preparation. A research study was carried out to know the family and child satisfaction about preoperative preparation performed by the nurses in one of the Lisbon´s Hospitals.  A questionnaire was applied to the children’s family who would be submitted to adenotonsillectomy, adenoidectomy and myringotomy. Satisfactory results were obtained, which enabled us to conclude that the majority of the children / families presented high levels of satisfaction regarding the pre-operative nursing consultation and the information provided, confirming that the pre-operative nursing consultation promotes better information and greater adherence to preoperative care instructions.

DESCRITORES : enfermagem, comportamento do consumidor, criança, família.

KEY WORDS: nursing, consumer behavior, child, family.

 

INTRODUÇÃO

O internamento e a cirurgia são conhecidos fatores de stress das crianças e suas famílias. Desde há alguns anos que diversos estudos científicos evidenciam a importância da diminuição da incerteza como modo de reduzir a ansiedade (1, 4, 10,11, 24). Neste sentido, têm vindo a ser desenvolvidos programas de preparação pré-operatória para as crianças/famílias, utilizando diferentes abordagens e metodologias. Na consulta externa de otorrinolaringologia de um Hospital de Lisboa, desde 2003, que se iniciou um programa de preparação das crianças para a cirurgia. Com o objetivo de avaliar o impacto dessa atividade realizada pela equipa de enfermagem, foi desenvolvido um estudo de investigação intitulado “A Satisfação da criança/família sobre a preparação pré-operatória realizada pela equipa de enfermagem”. Pretende-se confirmar a existência de uma relação direta entre a oportunidade de ter uma consulta de enfermagem de preparação pré-operatória e uma melhor informação, e maior satisfação relativamente ao período pré-operatório.

ENQUADRAMENTO TEÓRICO

A hospitalização surge como um evento stressante na vida da criança e da sua família, na medida em que altera o seu bem-estar físico e psicológico, bem como a dinâmica familiar. A criança enfrenta diferentes fatores de stress: alteração da sua rotina, do ambiente seguro, medo do desconhecido, lesão corporal, separação dos pais e ausência de figuras securizantes, perda de controlo, autonomia e competências (2, 8, 24).

Os enfermeiros estão mais próximos da criança/família e possuem uma visão mais ampla das necessidades de saúde da criança (15). Estes atenuam estas alterações com recurso aos cuidados que desenvolvem, prevenindo e controlando o medo e a dor da criança sujeita a procedimentos relacionados com o internamento e a cirurgia, estando comprovado que quanto maior é o conhecimento da realidade menores serão os medos e os receios da criança/adolescente (16).

A consulta de enfermagem de preparação pré-operatória é um indicador de qualidade de cuidados que se define como sendo uma explicação simples esquematizada e individualizada dos procedimentos ou da cirurgia que os enfermeiros realizam junto da criança com recursos a atividades lúdicas, à modelagem, à manipulação de brinquedos que representam o hospital e o seu equipamento e à apresentação dos profissionais(9, 17).O contato antecipatório com o ambiente e os procedimentos potencialmente dolorosos ou assustadores encoraja a criança/adolescente a falar e exprimir os seus receios e dúvidas, promovendo a diminuição do medo e tranquilizando a criança(13).

As Nações Unidas aprovaram a Convenção dos direitos da Criança, permanecendo subjacente o direito de informação da criança e o respeito pela sua decisão, nomeadamente no artigo nº4 “As crianças e os pais têm o direito de receber uma informação sobre a doença e os tratamentos, adequado à idade e à compreensão, a fim de poderem participar nas decisões que lhes dizem respeito”. O artigo nº8 da Convenção dos Direitos da Criança Hospitalizada salienta ainda que “A equipa de saúde deve ter a formação adequada para responder às necessidades psicológicas e emocionais das crianças e da família”.

Assim, os Enfermeiros têm o dever de salvaguardar os direitos da Criança, personalizando os cuidados e ter conhecimentos específicos a cada uma, e essenciais para avaliar a criança e a família, para adequar a informação que irá transmitir, tendo em conta o estadio de desenvolvimento, a personalidade, as estratégias de coping da criança e as experiências anteriores (quadro nº1). Assim, preparar a criança para um procedimento cirúrgico significa dar a conhecer o ambiente hospitalar, mais especificamente o ambiente cirúrgico e toda a sua panóplia de objetivos, procedimentos e profissionais envolvidos, as condições de acompanhamento, bem como transmitir segurança para aliviar a angústia da criança/família. A equipa de Enfermagem recorre a várias estratégias para preparar a criança e família para o procedimento cirúrgico, nomeadamente através da visualização de filme didático, biblioterapia, ludoterapia (manipulação dos materiais, brincar), observação de fotografias e livros.
Quadro nº1 – Estratégias de Preparação pré-operatória de acordo com o estádio de desenvolvimento da criança

QUADRO1_#5738

Fonte: Adaptado de Ordem dos Enfermeiros (2015) – Guias Orientadores de Boa prática em Enfermagem de Saúde infantil e Pediátrica.

Teixeira (2009) citando Casey (1988) menciona que a ação dos enfermeiros junto da criança/família assume uma configuração bastante distinta ao longo dos tempos, torna-se crucial humanizar e personalizar os cuidados, envolvendo a criança/família no tratamento e cura. Assim, o projeto de preparação da criança e família surge na sequência de identificação das necessidades destas, como forma de ultrapassar o stress, o medo, a frustração das crianças, assim como a insegurança e o medo, da hospitalização/cirurgia.

Quadro n º2 – Fatores a ponderar na consulta de enfermagem pré-operatória

Duração local Comunicação do enfermeiro
< 3 anos Duração < 10 minutos Pré-escolar Duração 10 – 15 minutos EscolarDuração 20 minutos Adolescência

Duração antecipadamente

Área neutraLivre de ameaçasSala de consulta preparada para o efeito Demonstrar interesse pela criançaEscutar e fazer perguntasFalar com simplicidade e honestidadeFala cum tom baixo e calmoColocar os medos em perspectivaEsclarecer confusõesInformar que nunca está sozinhaUsar linguagem neutraAjudar a concentrar-se em coisas positivasExplicar como solicitar ajuda aos enfermeiros.

Fonte: Ordem dos Enfermeiros (2015) – Guias Orientadores de Boa prática em Enfermagem de Saúde infantil e Pediátrica.

 

METODOLOGIA

A população deste estudo foram os acompanhantes das crianças que frequentam a consulta de otorrinolaringologia. A população alvo foram os acompanhantes das crianças atendidas na consulta de otorrinolaringologia para a consulta pré-operatória, e por fim, a amostra do estudo foram os acompanhantes das crianças atendidas na consulta de otorrinolaringologia para a consulta pré-operatória que seriam submetidos às cirurgias de adenoamigdalectomia, adenoidectomia e miringotomia com inserção de tubos de ventilação transtimpânica em regime ambulatório. As idades dessas crianças estavam compreendidas entre os 2 e os 14 anos.

Para instrumento de avaliação foi criado um questionário com 6 perguntas fechadas, com recurso a escalas de likert. Para a sua validação realizou-se um pré-teste na consulta de preparação pré-operatória de Otorrinolaringologia. Este foi aplicado a 10 pessoas da amostra, durante o mês de Julho. Após a análise do pré-teste foi introduzida uma pergunta fechada sobre a adequação do tempo dispensado pela enfermeira e 2 perguntas abertas com o objetivo de conhecer as sugestões dos pais sobre a consulta de enfermagem e avaliar as considerações dos acompanhantes das crianças relativamente ao local de atendimento da consulta de enfermagem, apreciando, ou não, o mesmo.

Assim, o questionário final de satisfação foi constituído por 2 perguntas abertas onde se pretendia que os participantes expressassem as suas sugestões, que já foi supramencionado. Relativamente às 7 perguntas fechadas, abordou-se as seguintes temáticas: atendimento, importância da informação, dia da operação, preparação pré-operatória, assertividade da informação relativamente às necessidades, tempo de espera no atendimento da consulta, tempo dispensado pela enfermeira.

Foram entregues 120 questionários entre 1 de Setembro de 2014 a 31 de Março de 2015, em papel e em suporte digital, aos acompanhantes das crianças atendidas na consulta de otorrinolaringologia para a consulta pré-operatória. Pediu-se consentimento informado para a colaboração neste estudo e explicou-se que o preenchimento do questionário era opcional e voluntário, sendo que o mesmo tinha como principal objectivo conhecer a satisfação dos utentes relativamente à preparação pré-operatória realizada pela equipa de enfermagem da consulta de otorrinolaringologia. O prazo de preenchimento do questionário era de uma semana, sendo que foram preenchidos na totalidade 50 questionários, o que corresponde ao número de elementos da amostra. No estudo foi tido em conta os Princípios Éticos e Direitos Fundamentais do Utente Pediátrico.

RESULTADOS

Para a realização do tratamento de dados das perguntas fechadas, utilizou-se o programa Microsoft Excel. No que concerne às perguntas fechadas, apresentam-se os dados obtidos e as principais ilações.

Na questão Nº 1 onde diz “Como considera o atendimento realizado pela enfermeira, no que se refere a acolher com simpatia, cordialidade e educação”, 64% dos participantes responderam “Excelente” e 16% “Muito Bom”.

Relativamente à “Demonstração de interesse por parte da enfermeira, para esclarecer, informar e orientar”, 68% responderam “Excelente”; 20% “Muito Bom” e 12% “Bom”.

Quanto à “Utilização de linguagem clara e objetiva” 68% referiram ser “Excelente”; 16% ”Muito Bom” e “Bom” relataram 16% dos inquiridos.

Na questão nº 2, foram abordados vários itens para a satisfação da pergunta “Qual a importância da informação fornecida pela enfermeira sobre …”, que serão apresentados no quadro nº3.

 

Quadro nº3 – Resultados da questão nº 2 do instrumento de avaliação.

Qual a importância da informação fornecida pela enfermeira?
  Muito importante Importante Pouco importante Nada importante
Tempo de jejum antes da operação 92% 8%
Cuidados com a higiene corporal e necessidade de retirar adornos 76% 24%
Objetos pessoais a trazer para o hospital 60% 36% 4%
Permanência dos pais ou pessoas significativas 88% 12%
Vantagens de trazer os objetos significativos criança/jovem 76% 24%
Medicação pré-anestésica (xarope ou comprimido) e EMLA (penso anestésico) 88% 12%
Modo provável de ser anestesiado (por máscara ou por injecção) 88% 12%
Modos de controlo da dor 92% 8%
Reacções e sensações possíveis ao acordar 80% 20%
Aspecto físico da criança /jovem após a operação 76% 20% 4%
Orientação sobre cuidados a ter em casa 92% 8%
Observação das fotografias/vídeo sobre o circuito operatório 80% 20%
Folheto informativo sobre a cirurgia 84% 16%

 

À questão nº3 “No dia da operação as informações fornecidas pela enfermeira ajudaram a Compreender melhor a situação; A pedir ajuda se necessário e A sentir-se mais calmo e confiante, a amostra respondeu na totalidade que sim.

Relativamente a Distrair a criança/jovem e a Acalmar a criança/jovem, 96% responderam que sim e 4% responderam que não.

Na questão nº4Se a preparação pré-operatória foi direccionada à criança (após os 5 anos), considera que … A linguagem utilizada pela enfermeira foi adequada e clara; O material lúdico utilizado foi adequado; Ajudou a tranquilizar e acalmar a criança /jovem; Ajudou a esclarecer as dúvidas e receios da criança/jovem; Foi importante para a criança/jovem”, 100% dos inquiridos responderam que sim.

A questão nº5 referente à pergunta A informação fornecida pela enfermeira foi de encontro às suas necessidades, 88% dos inquiridos reponderam muito e 12% suficiente.

Em relação à questão nº6 “Após a consulta de anestesia e do médico de otorrinolaringologia, teve de esperar pelo atendimento da enfermeira?”, 40% respondeu que não esperou, 36% esperou 0-15minutos, 16% esperou entre 15 e 30 minutos e ninguém esperou mais que 45 minutos.

Dentro da mesma questão, pediu-se opinião dos inquiridos sobre “Considera que foi importante o atendimento pela enfermeira?”, ao que 64% da amostra respondeu que sim, 12% respondeu sim, muito importante, 12% não respondeu e 4% respondeu Sim muito importante e esclarecedor; Tirou dúvidas sem pressa até a criança compreender; Sim, foi muito simpática; Sim, muito útil para acalmar as crianças e retirar dúvidas.

A última pergunta fechada é a questão nº7 “ o tempo que esteve com a enfermeira, considera ter sido…” ao que 72% respondeu que foi Muito Adequado e 28% respondeu que foi Adequado.

A pergunta aberta, questão nº8, que diz Que sugestões gostaria de fazer na preparação para a operação realizada pela enfermeira? os inquiridos sugeriram o seguinte: “Podem questionar os pais sobre o que sabem sobre a cirurgia, explicar o procedimento, percurso, cuidados após a cirurgia. O panfleto devia servir para reforçar. Maior interacção com a criança. Mas para tudo isso era preciso tempo, que sabemos ser limitado o número de atendimentos” (sic); “Deixarem os meninos irem logo às análises às 8horas (sic).

À pergunta aberta, questão nº 9, Considerou adequado o local em que se fez a preparação? Os inquiridos relataram: “Que tivessem uma sala sua, que não fosse interrompida com passagem de outros doentes para a sala de anestesia (consulta)” (sic); “Podiam ter uma sala isolada” (sic); “a Sala só devia ser para a enfermeira, criança e pais e não devia servir para outros entrarem para outra sala”.

 

DISCUSSÃO DE RESULTADOS

Dos resultados obtidos constataram-se duas áreas, uma referente ao atendimento de enfermagem e outra relativa ao encontro da satisfação das necessidades.

Para a área do Atendimento de enfermagem foram debatidas as questões nº 1, 2, 4, 6 e 7, o que permitiu concluir que na generalidade os acompanhantes das crianças atendidas ficaram Muito satisfeitos com o interesse demonstrado e a simpatia dos enfermeiros, os recursos utilizados e as informações transmitidas. O que coadjuvou a satisfação das necessidades da criança/ família proposta para cirurgia de adenoamigdalectomia, adenoidectomia e miringotomia com colocação de tubos transtimpânicos.

Na questão Nº 1 “Como considera o atendimento realizado pela enfermeira, no que se refere a acolher com simpatia, cordialidade e educação”, a maioria dos participantes relata que o atendimento de enfermagem foi “Excelente” demonstrando que os participantes ficaram bastante satisfeitos com o atendimento, considerando também a maioria dos pais das crianças haver “Interesse por parte da enfermeira, para esclarecer, informar e orientar”, não havendo respostas abaixo da classificação “Bom”. Quanto à “Utilização de linguagem clara e objetiva” a maioria dos participantes considerou haver um elevado nível de cuidado, não havendo respostas abaixo da classificação Bom, o que poderá dar indícios da informação ter sido percecionada pelas famílias. Esta questão vem de encontro com os estudos realizados por Fukuchl [et al] (2005) e Maia, Circéa e Borba (2011) onde consideram a postura, simpatia, conhecimento e disponibilidade dos profissionais de saúde aspetos importantes para a maior aderência das crianças/ família.

Na questão nº 2, “Qual a importância da informação fornecida pela enfermeira”, houve destaque para algumas temáticas de informação, pelo que nos concentrámos na informação que 92 % dos participantes consideraram como “Muito Importante”, nomeadamente a informação transmitida sobre “O jejum necessário”; “Os modos de controlo da dor” e “Os cuidados a ter em casa”.

Seguidamente 88% dos familiares das crianças submetidas a cirurgia revelam como “Muito Importante” a “Permanência dos pais ou pessoas significativas”; “A medicação pré-anestésica” bem como “O Modo provável de ser anestesiado”, estando de acordo com alguns autores que referem o medo da criança ficar sozinha no hospital e os procedimentos médicos como fatores de grande ansiedade para a criança (3, 15).

Quanto ao Folheto informativo sobre a cirurgia, 84% avalia como sendo “Muito Importante” seguidos de 80% de participantes, que consideram “O vídeo sobre o circuito operatório”, e As reações possíveis ao acordar” como “Muito Importante”, o que vai de encontro com estudos anteriores que reforçam a intervenção escrita (3) e visual como meio adequado de transmissão de informação aos pais/crianças(6, 20, 23).

Relativamente aos “Cuidados com a higiene corporal e necessidade de retirar adornos”, às “Vantagens de trazer objetos significativos para a criança” e ao “Aspeto físico da criança após acordar” foram relatados por 76%dos inquiridos como “Muito importante”, no entanto somente 60% referiram ser “Muito Importante” a informação sobre objetos pessoais a trazer para o hospital, o que pode ser explicado em virtude dessa informação vir descrita nos folhetos informativos e nos vídeos sobre o circuito pré-operatório, apresentados no atendimento de enfermagem.

Quanto à questão nº 4 a totalidade dos participantes considerou que na preparação pré-operatória foi utilizada uma linguagem adequada e clara, com o auxílio de material lúdico. A preparação ajudou também a tranquilizar a criança e a esclarecer dúvidas, o que vai de encontro com os autores Damas (2014), Santos, (2014) e Vieira (2009). Estes fatores foram relevantes, uma vez que a maioria dos participantes considerou a informação transmitida pela enfermeira como indo de encontro às suas necessidades, respondendo à questão nº 5.

Em relação ao tempo de espera, abordado na questão nº6, a maioria dos participantes relataram que não esperaram ou esperaram até 15 minutos e somente uma minoria (16%) esperou entre 15 e 30 minutos, o que traduz uma visão benéfica dos tempos de atendimento realizados pela enfermagem. Quanto à importância do atendimento de enfermagem a maioria considerou como importante, não havendo ninguém que considerasse que o atendimento não tenha sido profícuo, havendo inclusive participantes que referiram ter sido útil para acalmar a e esclarecer dúvidas “Tirou dúvidas sem pressa até a criança compreender”; “Sim, muito útil para acalmar as crianças e retirar dúvidas”.

A totalidade dos participantes também relatou como adequado o tempo que estiveram com a enfermeira, conforme se pode confirmar nas respostas à questão nº 7.

Relativamente à satisfação das necessidades da criança /família inquirida, associaram-se as questões nº 3, 5, 8, e 9. A totalidade dos participantes considerou que as informações transmitidas pela enfermeira ajudaram a “Compreender melhor a situação”, a “Pedir ajuda se necessário” e a “Sentir-se mais calmo e confiante”, sendo que uma grande maioria (96%) também considerou “Acalmar a Criança e Distraí-la” (questão nº 3).Os autores Salmela, Salantera e Aronen (2010); Broering & Crepaldi (2008) e Le Roy [et al] (2003) enaltecem a importância da informação a ser transmitida à criança, e recomendam que esta seja simples, realística e verdadeira, de acordo com o seu nível de desenvolvimento, compreensão sobre a situação de saúde, sobre o procedimento cirúrgico a ser realizado, experiência prévia de hospitalização, medos em geral e de procedimentos específicos.

Quando questionados sobre sugestões a fazer para a consulta de preparação pré-operatória de enfermagem (questão nº8), os inquiridos sugeriram o seguinte:

  •  “Deixarem os meninos irem logo às análises às 8 horas (sic).
  •  “Podem questionar os pais sobre o que sabem sobre a cirurgia, explicar o procedimento, percurso, cuidados após a cirurgia” (sic).;
  • “Maior interação com a criança. Mas para tudo isso era preciso tempo, que sabemos ser limitado” (sic).

Relativamente à questão nº 9 os participantes incidiram na necessidade de uma sala isolada para a preparação pré-operatória de enfermagem em vez de uma sala com entrada partilhada para a consulta de anestesia, o que se pode depreender pelas interrupções que esta situação provoca durante o atendimento de enfermagem.

  • “Que tivessem uma sala sua onde não fosse interrompida com passagem de outros doentes para a sala de anestesia” (sic);

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A preparação pré-operatória para a cirurgia à criança/ adolescente e família insere-se nos direitos fundamentais da pessoa, consignados nos princípios éticos: autonomia ou liberdade, igualdade e bem-estar.

A informação dos pais da criança atribui o cumprimento do direito à liberdade, e do direito ao bem-estar, atribuído através do consentimento informado legitimado pela informação transmitida no atendimento de enfermagem pré-operatório. A informação aliada à preparação psicológica assegura o bem-estar da criança e família, por minorar a ansiedade e o stress, como comprovam vários autores (6, 8, 14, 19, 20).

O estudo realizado demonstrou a importância da intervenção do enfermeiro na consulta de preparação pré-operatória para a cirurgia de otorrinolaringologia, bem como a importância atribuída pelos acompanhantes das crianças que frequentaram esta consulta, sendo considerada como um incremento nos cuidados de qualidade prestados.

Os resultados demonstraram que o atendimento de enfermagem está a ser consolidado no interesse na criança/família, e baseado em informações importantes pré e pós cirúrgicas tais como o tempo de jejum, a medicação pré-anestésica, a permanência dos pais no internamento, as estratégias de controlo da dor, os cuidados a ter no domicílio, entre outros.

Os pais/ crianças relataram que o tempo de espera na maioria dos casos é mínimo e o tempo despendido é o adequado.

Como sugestões os participantes relataram alguns problemas como é o facto de a sala de enfermagem ter uma entrada comum para a consulta de anestesia levando a diversas interrupções e sugeriram que as crianças fossem encaminhadas para o laboratório antes das consultas pré-operatórias. Estas sugestões entre outras vão servir para a equipa de enfermagem refletir em estratégias para colmatar os óbices detetados pelos pais/crianças.

 

Referências

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